Freaks

Eu sou suspeito para falar de ‘freaks’. Por muito tempo eu me senti como um tipo de pessoa que não se ‘encaixava’ em nicho algum. Depois de procurar em vão algum lugar externo que eu pudesse ‘pertencer’, agora eu procuro me encontrar numa aventura espiritual. A cada lugar que eu visite, cada pessoa que eu encontre, que eu converse, eu fico cada vez mais perto de me encontrar no único lugar que eu realmente possa me achar, minha mente.

Partindo do princípio de que todo sofrimento é resultado invariável da nossa comparação, muitas vezes incoerente, inconsequente, baseada nada mais nada menos do que em fragmentos de memória mal reeditados, despedaçados e incompatíveis com a minha realidade, rótulos não são mais do que um tipo de racismo ‘branco’, que não leva a lugar nenhum a não ser o sofrer.

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio. Fernando Pessoa

Eu tenho medo, pavor daqueles que se auto intitulam ‘normais’. Pensando assim, já estão se rotulando, estão se separando dos ‘outros’, como se estivessem se colocando acima daqueles que, socialmente não podem ser ‘encaixotados’, estão invariavelmente se colocando numa zona de conforto onde se sintam bem, onde acreditam ser parte do todo. Tal ‘todo’ a cada dia mais se atrofia, perde a identidade, se aliena do seu real significado. Rotular é separar, é quebrar com a unidade, é perder nosso senso do comum. Rotular desmonta a noção de comunidade, de humanidade que a cada minuto perde sua essência, seu real valor, aos poucos perde seu significado mais profundo.

Todos têm o seu método tal como todos têm a sua loucura; mas só consideramos sensato aquele cuja loucura coincide com a da maioria. Miguel Unamuno.

Os seres humanos perderam a noção de ‘espécie’, do que significa hoje ‘ser humano’. E não há indícios de melhora. Infelizmente, e eu acredito no ser humano,  tendencia é piorar muito para depois a humanidade começar melhorar. Nós como humanos temos um defeito grande que é a memória fraca e o ‘hábito’ de dar valor a alguma coisa só depois que a perdemos. Só espero que não precisemos entrar num processo de extinção do ‘ser humano’ para depois dar valor aquilo que mais temos de precioso, a vida. Espero que não acabe a água, a energia, o petróleo, bens cujo o fim está próximo, para darmos valor, pois seria muito tarde.

Nas artes plásticas, no cinema e na televisão, encontramos muitos exemplos de obras que abordam esta faceta sombria desta característica humana. A série ‘American Horror Story’ da qual sou fã de carterinha, teve a temporada passada intitulada ‘The Freak Show’ que mostrou o lado ‘negro’ do ser humano, caracterizando alguns ‘tipos’ de anomalias humanas e a relação doentia com sua cara metade, os ‘normóticos’.

O filme ‘Freaks’ de Tod Browning de 1932 influenciou bastante a série, por usar seres humanos com algum tipo de deformidade física ou dificuldade psicológica como personagens, o que dá mais arrepios ainda, pois nada é mais aterrorizante do que a própria realidade. O filme mostrou a realidade destas pessoas e suas dificuldades na relação com o ‘outro’. ‘Freaks’ foi bastante criticado e até banido de alguns países por um longo período de tempo. O filme chocou muita gente por sua brutal realidade plástica. Poucos estão abertos a presenciar aquilo que foge dos paradigmas visuais da sociedade. Mas, graças a um blog chamado ‘Decaying Holywood Mansions’ eu encontrei fotos dos atores originais posando para a câmera.

Contudo, sempre seremos ‘freaks’. Cada um na sua própria intensidade. Separar a raça humana em nichos nunca terminou bem. Resultou em guerras religiosas que devastaram nações, guerras civis que não tiveram nada de benefício para ninguém.

Precisamos aprender a viver e respeitar nossas diferenças, antes que seja tarde demais.

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