Contravenção de valores – Shohei Otomo

Shohei Otomo

Sua arte pode ser vista como altamente compulsiva e obsessiva pelo fato de ter como principal meio de comunicação a caneta esferográfica. Além disso, o que é feito com a caneta pelo artista é extremamente interessante e altamente delirante, fruto de uma busca incansável resultado de pesquisa árdua e desgastante. Mas sua arte não deixa de ser atraente por usar de um meio ‘simples’ como uma esferográfica.

Com um humor ácido e uma mensagem mais do que direta, Shohei Otomo faz uma crítica ferrenha da influência da sociedade ocidental, principalmente a cultura americana, na cultura oriental. Dois polos muito distantes são desenhados de uma forma orgânica, com uma técnica que beira a perfeição, transformando milênios de cultura em algo novo, diferente, moderno, inconcebível.

O contraste está na obsessão de seu traço, praticamente imperceptível, e na transformação, na metamorfose que propõe para seus personagens. Policiais viciados pelo sistema, gueixas transvestidas pelo narcisismo, estudantes armados até os dentes. O fato de seu trabalho ser feito monocromático também dá um caráter surreal para sua arte. O preto e branco é essencial para sua arte ser percebida através de todas as nuances do seu traço.

Disciplina e infindáveis horas de prática são necessários para aperfeiçoar este meio de expressão, ambos características elementares da cultura oriental. Mesmo assim, seu traço nos leva a outra dimensão, onde duas culturas colidem, onde um samurai que é sinônimo de disciplina e força bebe vorazmente um champanhe na garrafa, a bebida não é qualquer bebida e a pessoa não é qualquer pessoa. Dois símbolos de dois mundos diferentes são colocados de frente e o improvável acontece. O samurai poderia não beber o champanhe, mas sucumbe, viciado pelo sistema.

De acordo com seu trabalho, Shohei Otomo critica a influência do ocidente na cultura oriental. Armas de destruição em massa são usadas por adolescentes colegiais, policiais que deveriam passar calma e dar o exemplo de integridade e respeito são pintados usando drogas pesadas em poses comprometedoras, destituindo qualquer traço de poder e ordem que deveriam transmitir. Sinais dos tempos modernos que uma cultura maravilhosa tem que lidar.

Shohei Otomo descaracteriza a cultura oriental devido a sua mais temida ou querida americanização. É claro que ele, sendo um oriental e fazendo uma arte que exige tudo o que a cultura oriental tem como essência, não está contente com a americanização da sua cultura ou ele só está retratando o que é inevitável, aquilo que não pode ser só é a partir do momento que nunca foi.

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